MINHA EXPERIÊNCIA COM LINA BARDI
por Marcelo Ferraz
Em agosto de 1977, eu cursava o 4º ano da FAU, tinha acabado de fazer um estágio na Companhia do Metrô, chatíssimo, e não tinha nenhuma vontade de trabalhar. Foi aí que o arquiteto Joaquim Guedes, então meu professor, indicou-me para estagiar com Lina Bardi que, na época, não tinha escritório, e começava um grande trabalho: a restauração e recuperação de uma antiga fábrica no bairro da Pompéia para ser transformada num centro de lazer do SESC – Serviço Social do Comércio. Lina sempre preferiu trabalhar com estudantes.
Vacilei bastante antes de aceitar tal proposta, por vários motivos: no ano anterior, havia escolhido a obra de Lina Bo Bardi como tema de um trabalho do Departamento de História, e fui desestimulado e convencido a mudar minha escolha pelo professor, emérito arquiteto de São Paulo, com os seguintes argumentos: Lina Bo Bardi? Mas ela fez 3 ou 4 projetos e nenhum deles merece tanta atenção. Então perguntei: e o MASP? Bem, o MASP é importante, mas é um projeto cheio de problemas, mal resolvido. Ainda tentei, apesar de quase nada saber sobre a obra de Lina, pois na FAU, nos meus anos, nunca se falou dela: dizem que ela andou pela Bahia, e lá deixou marcas importantes. Novamente o professor: É o Solar do Unhão, e torceu a cara. Escolhi outro arquiteto para fazer meu trabalhinho.
O segundo motivo: quando contei para alguns colegas sobre a possibilidade de um estágio com Lina, logo me disseram: Ela é fascista! Nada me restava. Não pude acreditar que um fascista, com poucas obras e de menor importância, pudesse fazer um museu como o MASP, símbolo e marco para São Paulo, que a cegueira dominante nas nossas bandas universitárias não via, ou não queria ver.
Fui para a Pompéia e, em seguida chamei André Vainer. Juntos cursamos essa nova escola de arquitetura e vida. Com o escritório no canteiro de obras, o projeto era verificado a cada passo na realidade da obra, e ali era feito com a mais ampla participação: engenheiros, mestres, operários …
Lembro-me do dia em que aparecemos com o livro … Desenho e o Canteiro, do arquiteto Sérgio Ferro (tínhamos, meu grupo e eu, uma enorme esperança na arquitetura que o trio Flávio Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro tinha iniciado e logo interrompido com o AI5, porque, para nós rompia um pouco a camisa de força da herança do arquiteto paulista Artigas, que dominava a FAU). Tal livro que, diga-se de passagem, é um grande baixo astral para qualquer arquiteto, uma vez que a nossa profissão é a de construir e não a de não construir, teve de Lina o seguinte comentário: Qual é a novidade? O que é que estamos fazendo dentro de uma obra? Lina sempre atuou no canteiro de obras, com um enorme envolvimento.
Para nós, estagiários, tudo era novidade. Lina nos cobrava pela falta de cotas nos desenhos e por outros absurdos mais. O trabalho era fascinante, pois praticávamos arquitetura no seu sentido mais amplo: restauração, edifícios esportivos novos, teatro, restaurante, oficinas, todo o mobiliário, sinalização, trajes dos funcionários e, por fim, a montagem de grandes exposições que marcaram época, como a do Design no Brasil, Caipiras Capiaus: Pau-a-pique ou a dos Brinquedos da Criança Brasileira.
O SESC-Fábrica da Pompéia, como muito bem diz Lina, foi uma pequena experiência socialista e, nos primeiros anos de funcionamento sob sua supervisão (da qual participávamos intensamente como colaboradores), foi a grande novidade no cenário de São Paulo. O Brasil todo que por São Paulo passava não deixava de visitá-lo, nas exposições, bailes, festas, shows (quem não se lembra da Fábrica do Som?), comidas e bebidas na choperia, ou mesmo no nada fazer, pois lá, isso sempre foi permitido.
Lina faz a arquitetura do comportamento humano, quando projeta o espaço e nele interfere criando contextos e provocando a vida. Talvez a sua experiência no campo do teatro com Martim Gonçalves, Zé Celso e muitos outros, tenha sido fundamental. O convívio entre os homens é o grande gerador de tudo, por isso, nada de fotografias de sua arquitetura, sem os personagens, vazias, esteticamente perfeitas, equilibradas, mas … sem gente.
Ainda no período do SESC (77 a 86), participamos com Lina, André e eu, da obra da Igreja Santo Espírito do Cerrado, em Uberlândia, com os padres franciscanos. Foram inesquecíveis viagens onde, com espírito desbravador, experimentávamos de tudo e aprendíamos com Lina a beleza da flora do Cerrado. Foi novamente no canteiro que resolvemos a execução da obra. Com croquis em cores, pequenas anotações, discussões com o mestre ou o telhadista, tínhamos, por
fim, uma obra pronta e funcionando, sem o maldito pacote do projeto executivo detalhado. Aliás, vale lembrar uma frase de Lina: o detalhamento pode ser a morte, o fim da liberdade de um projeto. Hoje, temos guardados os calhamaços de pequenos desenhos desta obra, com anotações, canetas Bic, que contam sua história.
Bem, do SESC-Fábrica da Pompéia pulamos para a Bahia, acompanhando Lina, desta vez Marcelo Suzuki e eu, em seu segundo período de trabalhos naquela cidade. O primeiro foi entre 59 e 64, quando ali fundou e dirigiu o Museu de Arte Moderna da Bahia, restaurou o Solar do Unhão e nele montou o Museu de Arte Popular. Junto com Martim Gonçalves, Glauber Rocha e um grupo de grandes cabeças ligado à Universidade Federal da Bahia, sob o comando do reitor Edgard Santos, marcou toda uma geração e mudou definitivamente o olhar sobre a Bahia de até então. Mas, como diz Lina, esta é uma outra história que, espero, um dia ela nos conte num livro.
Estávamos em 86 e, de certa forma, banidos do SESC, pois o sucesso era tamanho, Lina incomodava tanto, que os altos escalões se sentiram ofuscados e enciumados. Fomos para a Bahia (ver AU …) a convite do então Prefeito Mário Kertész, que tinha como braço direito o seu secretário de Projeto Especiais, Roberto Pinho, articulador da ida de Lina e também da de Lelé para montar a FAEC (Fábrica de Equipamentos Comunitários). Juntos, Lina e Lelé deixaram marcas irreversíveis de intervenção crítica no contexto urbano, quer na preservação do patrimônio histórico, quer na modernização da cidade.
Foram quatro anos de fertilidade e entusiasmo. Nadávamos contra a maré do país, acreditando estar criando algo não só para o agora, mas para a virada do milênio. Com a mudança na administração municipal, fomos novamente colocados de lado. É importante dizer que tínhamos Gilberto Gil, e posteriormente Waly Salomão, na condução da Fundação Gregório de Mattos, funcionando como Secretaria de Cultura do Município.
Algumas obras, e não são poucas, lá estão como o Belvedere da Sé, a Casa do Benin (ver AU 18) com seu belo Museu e seu Restaurante de cozinha africana, a sede da Fundação Gregório de Mattos com sua genial escada (ver AU …), e aí, mais uma vez, depois da famosa e formosa escada do Solar do Unhão, Lina surpreendeu com sua arquitetura tal qual os grandes poetas. Isso me faz lembrar uma das inúmeras conversas de Lina com os estudantes que sempre a procuram: a poesia nada tem a ver com a beleza. Eu não procuro a beleza, e sim a poesia.
Fizemos também a sede do grupo Olodum e, finalmente, o projeto Piloto da Ladeira da Misericórdia, que lá está, pronto, e que até agora, não sei se por incompetência ou medo, ainda não foi inaugurado. Esta é uma experiência que poderia resultar, no mínimo, em novas lições sobre o que fazer ou não fazer nas intervenções em centros históricos populosos e em estado de destruição e abandono tão avançados.
Nestes quatro anos muitos projetos ficaram na gaveta, como a casa da Fundação Pierre Verger no Pelourinho, o projeto para a remodelação das 3 principais praças do centro de Salvador (Sé, Terreiro de Jesus e Cruzeiro de São Francisco), a recuperação da Igreja da Barroquinha, e um projeto bastante interessante para a Casa da Bahia (do Brasil) no Benin.
Lina tem a incrível capacidade de ser moderna em seus projetos, sem negar ou negligenciar os fortes elementos regionais ou tradições muito antigas ou menos antigas. Ao mesmo tempo, não se prende a tradicionalismos ou regionalismos (duas palavras malditas) e nem está preocupada em ser moderna. Nunca usou camisas de força. Tem a liberdade da poesia. É extremamente rigorosa em seus princípios, mas é capaz de mudar um projeto ao primeiro sinal de que algo vai mal ou não está bem resolvido. Projeta refletindo e questionando todo o tempo, como que num vai-e-vem, para que quando concluído, o projeto tenha sido, ao máximo, experimentado.
Com as flores murchando na Bahia, voltamos para São Paulo onde, convidada pela Prefeita Luiza Erundina para projetar a nova sede da administração municipal, Lina mergulha fundo, com vontade, no desafio de criar e conquistar mais um digno, generoso e alegre espaço para toda a população. Penso que se as condições forem favoráveis, esta obra será mais do que a sede da administração de uma das maiores cidades do Planeta: será um grande centro de convívio para toda a população resgatando o sonho do municipalismo pleno, uma vez que o chefe do governo municipal, ao invés de estar num canto qualquer da cidade, estará fisicamente no centro dos acontecimentos, numa casa pública, como nos melhores momentos da história dos homens.
Em Lina e sua obra podemos ver com a maior clareza que a condição de ser livre frente ao mundo é a base de toda criação.
* Minha experiência com Lina Bardi era o tema sugerido por Flávio Império para o meu TGI (Trabalho de Graduação Interdisciplinar) em 1978. Neste depoimento, vai um pouco dessa experiência.
Artigo publicado na revista AU nº40, edição de fev/mar 1992.
Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 418.
Deixe uma resposta.