Móvel com nossas raízes
por Marcelo Ferraz
Um móvel tem que ser honesto. E honesto, neste caso, quer dizer durável, simples, bem desenhado, pensado para durar mais do que a vida da pessoa que vai usá-lo.
Um bom desenho, quando falamos em móveis, significa que alguém pensou na maneira de construir aquele móvel.
Não podemos deixar de lembrar que fazer uma peça de mobiliário, é construir algo. Assim como planejamos uma casa, precisamos pensar bem no desenho de móvel para que os encaixes sejam precisos, haja equilíbrio, conforto, durabilidade. Um bom designer deve ser um bom construtor.
O que acontece hoje é que design virou moda e todo mundo é designer. Basta fazer uma luminária cheia de curvinhas e meio estranha que aquilo é design. E as coisas não são assim. Criar um bom produto é algo que requer estudos, testes, desenhos, cálculos e, principalmente estar sempre atento para atender ao objetivo primeiro, ou seja, para que servirá este produto.
Trabalho buscando sempre a simplicidade, mas ela é muito difícil de ser alcançada. Por isso vamos buscá-la na cultura popular brasileira. As pessoas mais simples, criam móveis simples, de acordo com suas necessidades. Um dos produtos que nós mais vendemos é um banquinho inspirado no banco caipira, com duas tábuas para sentar e duas que servem de pés. Isso é bom, dura e serve àquilo que nós precisamos.
Hoje, em termos de móveis, não há muito o que inventar. O austríaco Thonet há mais de cem anos, já criou as melhores cadeiras do mundo e elas nos servem, são perfeitas. Algumas coisas, já foram resolvidas. Cabe a nós recriá-las, adaptá-las à nossa realidade.
Luto por um design que olhe mais para o Brasil, que respeite nossa madeira, que a faça aparecer, pois ela é tão digna e tão nobre que merece toda a nossa atenção. É por isso que o trabalho do bom marceneiro é fundamental. Ele deve saber como respeitar a cultura brasileira que mora dentro de nossas madeiras e, só assim, executar um móvel realmente honesto.
Artigo publicado na revista Ícaro nº128, com o título ‘A arte de sentar’.
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