A FÁBRICA DE SONHOS
por Marcelo Ferraz
O Centro de Lazer SESC - Fábrica da Pompéia é uma “ilha de excelência” em termos de conforto urbano associado a fortes valores culturais brasileiros, dentro da caótica e sofrida metrópole de São Paulo.
Lina Bo Bardi costumava usar o termo Cidadela – do inglês goal, que significa “meta” ou “ponto de defesa de uma cidade” – para designar o conjunto da Pompéia com sua vibrante e intensa vida cotidiana: crianças, jovens, adultos ou velhinhos; intelectuais ou leigos; ricos ou pobres; todos ali encontram seu espaço, sua áreas de interesse, seu “cantinho”. Assim é a Cidadela de defesa da convivência.
A arquitetura, profundamente carregada de significado, define ou interfere no comportamento de toda a gente que ali freqüenta, enfatizando o respeito pelo espaço coletivo e público.
Podemos dividir em 2 o conjunto da Pompéia: a antiga fábrica de tambores em tijolo aparente e o novo bloco esportivo em concreto protendido. Os galpões da velha fábrica, com comunicação horizontal, foram destinados às atividades culturais, ou de maior necessidade de contato entre as pessoas. O bloco em concreto, com comunicação vertical, foi projetado para os esportes, uma vez que não havia espaço suficiente no plano horizontal para abrigar todo o programa de uso. Nos esportes, os focos se voltam introspectivamente para o foco do jogo, por isso não foi problema empilhar verticalmente várias quadras poliesportivas, ou salas de lutas; já os galpões históricos, que se comunicam pela aconchegante rua de pedestres abrigam naturalmente a convivência, o encontro das pessoas por excelência: teatro, restaurante, biblioteca, exposições ou o simples nada fazer.
Estes são aspectos do projeto que merecem ser evidenciados, uma vez que foram determinados pelo o arquiteto, que vê no programa de ocupação e uso a mesma importância da solução formal. Aliás são indissociáveis. Lina não se rendeu ali a nenhum modismo formalista que sobrepujasse o uso, fosse ele “retrô” ou pseudo futurista. “Todas as soluções devem atender às necessidades contemporâneas, corresponder ao seu tempo, assim serão sempre modernas”, dizia Lina.
Nos 9 anos que ali passamos (1977 a 1986), projetando e dirigindo as obras no canteiro e, ao final, programando as atividades culturais do centro já em uso, pudemos comprovar que a arquitetura atinge seu fim quando promove a convivência entre os homens, independentemente de faixa etária, raça, credo ou classe social, promove o simples viver, com dignidade, respeito e liberdade. Tudo isso pode ser encontrado nesse centro de lazer. “Fizemos uma pequena experiência socialista”, disse Lina repetidas vezes.
É a arquitetura plena de sonho materializado em forma, a serviço do Homem e das relações humanas.
Talvez, toda arquitetura assim o devesse ser.
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