DEZ ANOS SEM LINA

por Marcelo Ferraz

Quem era esse estranho ser, esse “arquiteto” Lina Bo Bardi, que há dez anos nos deixou, que gostava comprimentar - “oi bicho!” e, sem esconder a doçura, dizer “sou barra pesada!”?
Lina foi ativista da resistência ao nazi-facismo na Itália, durante a segunda grande guerra. Depois, nos anos 60/70, participou intensamente do movimento da contracultura e da luta contra a ditadura militar no Brasil, tendo que responder a um inquérito sobre suas “atividades subversivas” por dois longos e difíceis anos. Em outras frentes, Lina lutou, com sua crença, para salvar a honra e a liberdade de um povo que “deveria dar certo”, fundiu a cultura popular brasileira com a vanguarda européia do teatro, da música, das artes plásticas e da arquitetura, tudo levando para o cerne de seu fazer, de sua ação muito mais que arquitetônica. Ao criar seus espaços generosos, utilizou as ferramentas da grande arquitetura, aquela que contempla não somente os cinco sentidos, mas a alma, o espírito, a plenitude da vida.
Nos últimos anos muito se publicou e se expôs sobre Lina, mas, diante da riqueza de seu pensamento, de sua obra escrita, projetada ou construída, sua ação de militante política e cultural, ainda é pouco. Pouco se discutiu com a profundidade necessária.
Inúmeras são as pistas deixadas no difícil e obscuro caminho da arquitetura contemporânea. Muitas delas complexas e nada óbvias, porém intrigantes, contestadoras, desafiadoras e plenas de esperança no “bicho-homem”. Assim o provam o MASP, o SESC Pompéia, o Teatro-rua-Oficina, as “pobres” igrejinhas de Uberlândia e Ibiúna e os tantos outros projetos (não muitos) que habitam a Bahia: à frente, o Solar do Unhão e sua magistral escada.
Há dez anos Lina desapareceu levando consigo seu gênio indomável de ácido e apaixonado crítico social, e intransigente arquiteto que não abria mão de seus princípios éticos humanistas.Pertencendo à chamada 3ª geração de arquitetos modernos, assim como o mexicano Luiz Barragán, o holandês Aldo van Eyck, o norueguês Sverre Fehn, o indiano Charles Correa, e tantos outros, Lina teve, como eles, o importante papel de reintroduzir certos valores e princípios fundamentais em qualquer atividade criativa - e básicos na arquitetura, - que haviam sido deixados de lado pelos pioneiros da arquitetura moderna do início do século XX quando, para se impor uma nova ordem, foi necessário combater o passado como algo nefasto, limitador e estagnante. Eram os valores da cultura local, das tradições, da história, das peculiaridades e particularidades inerentes a cada cultura, cada geografia – física e humana, cada povo e cada rincão. Esse esforço enorme, e compreensível, foi necessário à implantação de uma nova ordem arquitetônica, afinada às novas regras da produção industrial. Foi, sem dúvida, fundamental num primeiro momento. Mas, sua continuidade, via “international style”, - ainda muito viva em nossos shopping centers e afins -, nos levou à mais pobre realidade “espiritual”, dentro da mais tacanha globalização: a que suprime diferenças. Uma vez sedimentadas tais conquistas pelas estradas do mundo moderno, industrializado, essa muralha, que parecia esconder a história e valores da humanidade, poderia cair.
Lina, já nos anos 50, nos alertava, fazendo-nos olhar para o pobre e rico Nordeste em sua criatividade e habilidade populares; para o alegre e triste mundo caipira da Paulistânia; para a força das diversas culturas trazidas pelos migrantes e imigrantes para a Metrópole São Paulo, para os valores autóctones e também para os valores originais da cultura brasileira.
“Na arquitetura de Lina Bo Bardi podemos ver o florescimento de uma cultura artística brasileira e seus múltiplos vínculos com a história e o moderno, com o popular e o internacional ao mesmo tempo”, escreveu o filósofo Eduardo Subirats. Lina ajudou os brasileiros (nem todos) a descobrir seu próprio país sem o ranço do passado colonial escravocrata. Basta lembrar as antológicas exposições “A Mão do Povo Brasileiro”, em 1969 ou “África Negra”, em 1988, ambas no MASP. No mesmo MASP que, com complexo de inferioridade, baniu os geniais cavaletes de vidro criados por Lina para sustentar sua coleção de pinturas, com eles levando parte de seu caráter, de sua força fundadora.
Lina Bo Bardi é, sem dúvida, expoente do pensamento arquitetônico brasileiro, apesar de nunca ter se aliado a nenhuma corrente. Também não fez escola, no sentido formal de projetar: espalhou sementes de pensamento. Continuará, com o legado de sua obra e ação, alimentando a produção da arquitetura, ajudando a pensar e propor uma nova vida para nossas sofridas cidades.
Somente após sua morte, em 1992, foi que pudemos divulgar sua obra com a realização de um belo livro panorâmico (infelizmente esgotado e que deveria ser re-imprimido), um vivo documentário em VT (que poderia ser re-exibido pela TV Cultura), e com uma riquíssima exposição, levada a mais de 40 cidades espalhadas pelo planeta (já mais do que na hora de ser re-exibida, para uma nova geração de arquitetos e estudantes sedentos por conhecê-la). Em Paris, na abertura da exposição, na “Maison de l’Architecture”, o Presidente do Instituto Francês de Arquitetos abriu assim seu discurso, entre surpreso e perplexo: “É preciso rever a história recente da arquitetura moderna, depois desta mostra, que traz ao público, o trabalho de Lina Bo Bardi”.
Certa vez, questionada sobre “o que era a arquitetura ou qual o seu papel no mundo atual”, respondeu: “para mim, arquitetura é ver um velho, ou uma criança, carregando um prato de comida, caminhando com altivez, com a dignidade de um ator de teatro no palco, desfilando, num dia qualquer da semana, no Restaurante do SESC Pompéia”. Lina se referia às possibilidades de atuar na realidade através da arquitetura, através da criação de “espaços recipiente da existência”, como bem definiu Steven Holl; em sua capacidade de alterar comportamentos, dignificar, confortar: ser útil.
Lina, sempre que pôde, combateu a procura formal, o exercício da composição, o “belo” clássico. Achava que, depois dos avanços da ciência, depois da Teoria da Relatividade a questionar o tempo, dos avanços na música e nas artes das vanguardas internacionais, do início do século passado, a arquitetura deveria ser livre para servir ao homem em sua plenitude, sem se subordinar a modismos ou tendências regionais ou internacionais, sem jamais abrir mão da nobre missão de ser o protagonista do habitat humano por excelência: nossas cidades. Numa rápida olhadela à nossa volta podemos constatar quanta falta faz Lina. Hoje, no panteão dos grandes mestres, onde não sei se ela gostaria de estar, dado o seu lado gauche, ressoa a sua atualíssima frase radical: “nunca procurei a beleza, mas sim a poesia”. Que seu eco nunca morra.

Artigo publicado no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, em 17 mar. 2002, com o título ‘Nunca procurei a beleza, mas sim a poesia’

 

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