LUZ NOS MUSEUS
por Marcelo Ferraz
A criação de dois novos museus em São Paulo - a Estação da Luz da Nossa Língua e o Quintal da Luz – jogam nova luz sobre a própria idéia de museu. Os museus vêm, há alguns anos, transformando-se, mudando seu papel na cena da complexa vida das cidades. Em vez de depósitos privilegiados de valores artísticos ou históricos do passado, assumem novos programas, novas funções e usos.
Hoje, é cada vez menor a possibilidade de constituir importantes acervos artísticos ou documentais, por um lado pela falta de oferta e pelo alto valor a se despender para obter algo significativo e, por outro, pelos escassos investimentos (para não dizer vergonhosos quando falamos de Brasil), que a sociedade, como um todo, tem dedicado às ações culturais. Soma-se a isso a demanda de acesso democrático aos museus, seja pela implementação de programas escolares de visitação, seja pela necessária abertura de suas portas à entrada de nova gente que nunca havia botado os pés nestes espaços de ares restritivos e inibidores, para poucos.
Os museus já são parte indissociável das cidades modernas e estão integrados à vida cotidiana. Neles buscamos, muitas vezes, um bom café, uma refeição honesta, banheiros limpos, telefones, uma loja com produtos exclusivos, ar condicionado para um encontro no verão, enfim, uma pausa na agitação diária.
Espaços de reflexão e convivência por excelência, os museus se abrem agora aos mais variados e inusitados temas, guiados pelo olhar antropológico, ferramenta de grande utilidade nos dias de hoje, em que os conflitos dos encontros são a marca da época, e as cidades o palco principal. Assim sendo, ou os museus se transformam para falar a nova língua da urbis, para abarcar toda a reflexão possível entre o que se passa na vida do cidadão e aquilo que eles trazem em seus acervos - memórias do passado remoto ou recente -, ou estão fadados ao fracasso e ao isolamento. Assim como vamos ao médico, fazemos exames para saber como anda nossa saúde, como vai o corpo, vamos também aos museus para ver como é que estamos, como vai nossa saúde intelectual e, por que não dizer, civilizacional. Buscamos nos museus espelhos do tempo e do espaço que nos permitam uma auto-avaliação. Quando nos deparamos com objetos, obras de arte ou documentos que nos levam a outras épocas, outros espaços geográficos, outros povos, outros modos de vida e de estar no mundo, estamos numa viagem de autoconhecimento profundo.
Está claro que, em tempos de comunicação rápida, o desafio aos criadores e gestores de museus se redobra. É preciso encontrar os meios, a nova linguagem, a nova gramática, a chave da comunicação para os novos tempos. E para isso não há regras, cada caso é um caso, cada tema ou assunto demandará soluções próprias de comunicação. Deveríamos tomar, quem sabe, algumas lições do cinema, que sabe contar histórias sem se esgotar. Os museus também contam histórias, múltiplas, cruzadas, entre cruzadas.
Os dois novos museus, uma realização conjunta do Ministério da Cultura, Secretarias de Cultura do Estado e do Município, com apoio da iniciativa privada, abordarão temas um tanto inusitados, ou até pouco concretos: a Estação da Luz da Nossa Língua e o Quintal da Luz. Ambos, no entorno do Jardim da Luz. O primeiro, já bastante divulgado, e em franco desenvolvimento, tem como objeto central a ser mostrado, discutido, enfim, tem como acervo, a Língua Portuguesa. Com um belíssimo projeto arquitetônico de Paulo Mendes da Rocha, nossa velha e estimada Estação da Luz, uma vez reformada, recuperada e modernizada, continuará a ser uma importante estação de transbordo de passageiros, integrando trens e metrô, e será também um ponto privilegiado de reflexão sobre nós mesmos, através da língua que falamos e construímos a todo momento.
O segundo, Quintal da Luz, do lado oposto da Estação, entre o Jardim da Luz e a praça Fernando Prestes, será um Centro da Cultura da Criança. Um espaço que levará ao trono a cultura da infância com todas as suas implicações. Os brinquedos (atuais ou do passado, quase esquecidos), as histórias, as músicas, o fazer objetivo através do convívio, o exercício da tolerância fundamental nas brincadeiras, a construção e a invenção de “mundos” da infância de todos nós. Como na epígrafe utilizada por Lydia Hortélio, curadora e criadora do Quintal da Luz, na apresentação do projeto: “O homem só é inteiro quando brinca, e é somente quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra homem” (Friedrich von Schiller). Tomar este tema como reflexão em face da vida que hoje levamos nas metrópoles pode ser muito bom, pode nos ajudar a livrar muitas das amarras que vida dura da metrópole nos impõe.
Estes novos museus respondem às novas demandas da vida, mais sofisticadas, ou mais complexas, no emaranhado do mundo das comunicações e encontros cada vez mais inusitados e originais.
Artigo publicado no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, em 01 mar. 2004, com o título ‘O museu não é só um depósito de obras’.
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