São nossas periferias uma causa perdida?

por Marcelo Ferraz

Gostaria de apresentar aqui uma breve reflexão sobre o tema, partindo de um olhar sobre as periferias das grandes metrópoles brasileiras, que muito se assemelham às periferias das cidades de países mais pobres ou em desenvolvimento. Mas quero salientar também que muitos dos problemas – verdadeiras doenças urbanas – apresentados em nossas cidades são também comuns às cidades mais ricas e desenvolvidas da Europa e da América do Norte.

Inicialmente, coloco uma pergunta: “Estamos abdicando de nossa condição de Seres Urbanos, este elevado estágio conquistado pela humanidade ao longo de milênios e que nos custou tanta guerra e sofrimento?”.

Olhando a uma certa distância para essa massa de construções humanas amontoadas umas sobre as outras, poderíamos até adjetivá-las como uma nova e interessante textura, uma “new urban peripherie texture”, ou algo como uma “visual periphery fabric”. Mas não! Devemos imaginar – como arquitetos e urbanistas – as condições espaciais em que vivem esses milhões de pessoas, e as conseqüências dessas condições espaciais degradantes e indignas nas relações humanas que ali se desenvolvem. São verdadeiros infernos urbanos (humanos?).

Meu pai – homem do século passado que já morreu – costumava usar o termo “urbanidade” para designar o respeito, o tratamento refinado e gentil entre as pessoas: “fui tratado com muita urbanidade”, ele dizia. Penso, então: o que nos fez perder hoje em dia o significado sutil no uso dessa palavra? O que mudou? Voltemos às nossas periferias…

Em pleno século XXI, nossas periferias seguem configuradas por milhares de favelas – no sentido da construções provisórias e precárias – e por aquilo que podemos chamar de uma “evolução” da favela – construções de alvenaria, mais sólidas e definitivas, com estruturas estáveis e materiais mais duráveis. Em ambos os casos, essas estruturas, sobrepostas umas às outras, revelam uma profunda pobreza espacial e a total carência de espaços adequados ao convívio humano. O que temos hoje, num processo de expansão descontrolada das cidades brasileiras, é a consolidação espacial das ex-favelas e sua transformação – por decreto – em bairros, não importando aí a qualidade dos espaços e, por conseqüência, da vida cotidiana ali.

Para agravar a situação, o Estado brasileiro – e também muitos outros estados latino americanos - têm reconhecido legalmente esses assentamentos populacionais das periferias, oferecendo às populações pobres títulos de propriedade. Em princípio, essa poderia ser até uma ação louvável, um “primeiro passo”. Mas, quando nos aproximamos dos problemas reais , caso a caso, vemos enormes desastres humanos e socioambientais. Assentamentos são feitos sem uma análise prévia das situações, sem bons diagnósticos, de forma frequentemente irresponsável. O que dizer da falta de espaços públicos de uso coletivo na maioria destes bairros – praças, escolas, ruas, árvores, abrigos, bancos, tudo aquilo que faz de uma cidade, uma cidade?

Essas medidas paliativas consolidam e oficializam o desconforto urbano (humano?).

Considerando que cem por cento das favelas e periferias são frutos de um processo de segregação social que separa ricos e pobres decorrente da má distribuição de renda, e que a falta de alternativa e perspectiva é enorme entre os mais pobres, vemos tomar conta das periferias a construção aleatória e espontânea, sem os requisitos técnicos mínimos e sem cuidados espaciais. São quase sempre ocupações de terrenos públicos – invasões - sobre nascentes d’água ou córregos, encostas íngremes, depósitos de lixo, enfim situações gravíssimas.

Um outro componente psicológico agravante é a noção muito difundida de que o espaço público é terra de ninguém, portanto terra a ser conquistada. Essa falta de reconhecimento do espaço público como espaço necessário, espaço do convívio e das trocas humanas, nos leva a um verdadeiro estado de barbárie. É, entre outras coisas, a violência que vemos em muitas favelas e zona periféricas de nossas imensas cidades, verdadeiros guetos do medo e da falta de liberdade.

Mas, afinal, não seria a cidade o grande palco da libertação do homem, do trato humano, do encontro dos diferentes e da busca de tolerância, o recipiente da existência, espaço da criação plena?

Podemos então concluir que nossas periferias não são cidades, e nem possuem as credenciais mínimas para portar seus títulos derivados, tais como cidadão e cidadania.

Nós, arquitetos, terapeutas do sofrimento urbano, deveríamos olhar para essa realidade e, principalmente, para as políticas públicas que são adotadas por nossos governos, com muita crítica e ceticismo. Não é dando títulos de propriedade e nem fazendo pequenas melhorias – a chamada urbanização de favelas - que daremos o salto para a conquista da didadania. Em muitos casos, é preciso abrir grandes clareiras nas periferias para introduzir espaços e equipamentos públicos como escolas, praças, hospitais, etc, de uma maneira corajosa e contundente, com projetos de qualidade. Precisamos, muitas vezes, partir do zero, redesenhar bairros. Claro que não é regra geral, e que cada caso é um caso. Nossas periferias são verdadeiros monstros que crescem como anomalias, incontroláveis, deixando cada vêz mais distante a esperança de uma vida cidadã, inclusiva e democrática.

E, antes de encerrar, eu gostaria de lembrar também que as periferias das grandes cidades ricas, como Paris, Chicago ou Barcelona, padecem do mal da “depressão urbana”. São feitas de conjuntos habitacionais replicados homogeneamente ao extremo, cinzentos, verdadeiras cidades dormitórios que também não apresentam soluções ou saídas para o problema das cidades e periferias de nossos países. Não nos servem de exemplos.

Não quero aqui parecer um grande pessimista, postura incompatível com nossa profissão de arquiteto – construir, ver adiante, projetar futuros…
Mas é importante uma profunda reflexão sobre essa questão, tema deste seminário. Ao projetar, devemos redescobrir a lógica dos relacionamentos humanos, considerando a especificidade de cada povo, mergulhando antropologicamente na cultura de cada lugar. E com esse olhar, tentar entender o espaço urbano, desde o macro – dos deslocamentos dos fluxos dos serviços e necessidades - até o micro, o que há de singular – seja o namoro num banco de praça ou as brincadeiras de rua de um grupo de crianças.

Como arquitetos e urbanistas, e a despeito de todo conhecimento acumulado, que nos é e sempre será útil, parece sempre necessário começar do zero, observar, compreender e reinventar novas soluções. Tentar entender nosso mais primitivo instinto gregário. E então voltar a perguntar: “por que é que construímos cidades?”.

 

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 333.

Uma resposta para “ São nossas periferias uma causa perdida? ”

  1. Ronaldo Amaro disse:

    Parabens Marcelo, muito bom o seu texto, concordo plenamente com você nesta postura contra o jeito que o estado esta realizando a urbanização de favelas.

Deixe uma resposta.